Silvia Leite
Um quibe nunca é "só" um quibe!

Arrumando os armários da cozinha, encontrei um pacote de trigo para quibe com a validade se aproximando do fim.

Foi o suficiente para me dar aquele estalo:

“Acho que vou fazer quibes!”

Fui ao freezer conferir e, sim, havia carne moída. Pronto. A decisão estava tomada.

Mas, enquanto separava os ingredientes, outra coisa apareceu na cozinha: a memória.

Voltei a ser pequena, ajudando minha avó a enrolar quibes e, entre um e outro, comendo pequenos bocados da massa ainda crua. Foi com ela que aprendi o esquema.

Primeiro, separávamos um pouco do trigo lavado e escorrido para fazer o tabule, que seria servido na primeira refeição, acompanhado do quibe cru.

Depois, separávamos uma parte da carne moída para preparar bem fritinha. Era o recheio dos quibes que seriam fritos mais tarde, no jantar.

E havia a hortelã.

No quintal, minha avó sempre tinha um pé. Ela não abria mão das folhinhas verdes. Talvez nem fosse apenas por causa do quibe. Ela acreditava que um bom chá de hortelã curava quase todos os males — da digestão ao relaxamento de que tantas vezes precisamos.

Então, picadinhas, elas iam para o tabule, para a massa do quibe e também para o recheio.

Hoje, enquanto repetia aqueles movimentos que aprendi há tantos anos, fiquei pensando em tudo o que uma receita pode ensinar.

Não sei dizer de qual aprendizado da minha avó me orgulho mais.

Se o de saber preparar uma comida deliciosa, prática e tão versátil. Uma receita que pode ser congelada, assada no forno em vez de frita ou preparada em pequenas quantidades na air fryer — uma grande aliada das famílias pequenas e, hoje, também da minha cozinha.

Ou se o que mais ficou comigo foi a paciência.

A paciência de enrolar cada quibe com cuidado, apertando a massa, abrindo a cavidade com o polegar, colocando o recheio e fechando delicadamente, formando aqueles biquinhos tão característicos.

Minha avó não tinha pressa. Nem preguiça.

Talvez porque cozinhar para a família, para ela, nunca fosse apenas uma tarefa.

Era uma forma de cuidar.

Era também uma demonstração de generosidade: passar horas envolvida em algo que, no final, iria alimentar e agradar quem ela amava.

E havia ainda uma outra lição, talvez mais silenciosa: a de ter um paladar simples, mas exigente. Saber reconhecer um sabor bem feito. Perceber quando a hortelã está na medida certa, quando a carne está suculenta, quando o trigo encontrou a textura perfeita.

Porque comida boa não precisa ser complicada.

Precisa ter intenção.

E talvez seja justamente isso que mais gosto nas receitas que herdei: elas carregam muito mais do que ingredientes.

Carregam pessoas.

Carregam gestos.

Carregam uma maneira de estar à mesa.

Desta vez, fiz quibes bem recheados. Talvez até demais.

O recheio sobrou.

E aqui entra outra daquelas pequenas lições da cozinha que aprendi ao longo da vida: nada se perde quando existe vontade de transformar.

A carne que sobrou virou recheio de uns pasteizinhos assados, práticos e deliciosos.

A receita desses pasteizinhos está no meu livro "Se a Vida Tivesse Receita", página 81.

Mas os quibes, esses continuam sendo os da vovó.

E, toda vez que os preparo, tenho a sensação de que ela está ali, ao meu lado, com as mãos ocupadas, a hortelã por perto e aquela paciência infinita para me ensinar!

Quibe recheado

Ingredientes

500 g de patinho moído 1½ xícara (chá) de trigo fino para quibe 1 cebola Raspas e caldo de 1 limão 1½ xícara (chá) de folhas de hortelã 1 colher (chá) de pimenta-do-reino moída na hora 2 colheres (chá) de sal 3 cubos de gelo Azeite a gosto

Modo de fazer

Forre uma peneira com um pano de prato limpo. Coloque o trigo e lave sob água corrente.

Una as pontas do pano, formando uma trouxinha. Torça e esprema bem para retirar o excesso de água. Reserve.

Misture com as mãos o trigo com a carne, a cebola bem picadinha, as raspas e o caldo de limão, a hortelã, a pimenta e o sal.

Acrescente os cubos de gelo. É um daqueles detalhes que a gente aprende observando e repetindo, muito antes de saber explicar exatamente o porquê. Regue com um fio de azeite.

Recheio 500 g de patinho moído 1 cebola 2 colheres (sopa) de manteiga 3 colheres (sopa) de tahine (pasta de gergelim), opcional ½ xícara (chá) de nozes picadas 3 colheres (sopa) de salsinha bem picada Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto Modo de fazer Doure a cebola na manteiga e acrescente a carne. Frite bem, desfazendo os grumos, mas sem deixar a carne secar demais. Tempere com sal e pimenta. Desligue o fogo e misture o tahine, as nozes e a salsinha. Leve à geladeira até esfriar completamente. Para moldar os quibes, umedeça as mãos, pegue uma porção da massa e, com o dedo polegar, faça uma cavidade no centro. Coloque o recheio e em seguida um pedacinho de manteiga e feche cuidadosamente, dando o formato alongado e formando os biquinhos nas extremidades. Os quibes podem ser congelados e, depois, preparados diretamente no forno, no óleo quente ou na air fryer. Porque receita boa é assim: atravessa gerações, se adapta à vida e, de preferência, ainda deixa alguma coisa para o dia seguinte.